quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Asfalto até a fazenda de Liliane Roriz foi pago com cascalho, diz empresa

Asfalto até a fazenda de Liliane Roriz foi pago com cascalho, diz empresa

Brasília(DF), 22/11/2017 - Liliane Roriz - fazenda da deputada distrital em Luziania asfaltada por obra da CELG. Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles

Segundo a EHL, a obra de 1,5km na entrada da fazenda da distrital é uma permuta para fornecimento do insumo

No vocabulário popular, cascalho significa dinheiro, grana, bufunfa, tutu, tostão, trocado, dindim. Segundo a construtora que levou asfalto até a sede da fazenda de Liliane Roriz (PTB), essa foi a moeda de troca da deputada distrital para, supostamente, bancar a pista de acesso à propriedade dela. A mesma empresa contratada pelo governo de Goiás para pavimentar um trecho de 12km da GO-425 também fez a obra de 1,5km que liga a rodovia à fazenda de Liliane.

A Eletro Hidro Ltda. (EHL), responsável pela empreitada, informou, por meio de nota, que o serviço executado na propriedade da parlamentar é uma permuta prevista em contrato firmado entre a companhia e o governo de Goiás.

De acordo com a versão da EHL, o projeto inicial da empresa indicava que todo o insumo para subsidiar o serviço seria retirado da jazida de propriedade da família Roriz. A obra na rodovia custou R$ 14,4 milhões ao governo de Goiás.

Como contrapartida ao cascalho que pavimentou a pista de ligação entre Luziânia e o Jardim Lago Azul, no Novo Gama, a EHL afirma trabalhar no asfaltamento da via que dá acesso à fazenda da deputada, em Luziânia (GO). Entre as propriedades da região, lindeiras à rodovia, o local é o único com asfalto na entrada. As outras, chão batido.



Reprodução/Metrópoles
REPRODUÇÃO/METRÓPOLES
A carona que Liliane Roriz pegou na obra pública patrocinada pelo governo de Goiás foi revelada em reportagem do Metrópoles na última terça-feira (28/11). A partir da publicação, o Ministério Público do estado decidiu abrir inquérito para investigar as circunstâncias e condições da benfeitoria em favor da parlamentar.

“O promotor que assumir o caso exigirá o contrato da empresa para saber como ocorreu a pavimentação na propriedade particular”, disse Bruno Marra, coordenador do Centro de Apoio Operacional do Ministério Público de Goiás.

Como nem a deputada nem a empresa apresentaram notas sobre a contração do serviço, o Ministério Público vai apurar se houve favorecimento ilegal a partir de um contrato que envolve dinheiro tirado dos cofres do governo comandado por Marconi Perillo (PSDB/GO).

Amizade

A relação da família Roriz com Perillo sempre foi muito próxima. Os dois se visitam com certa frequência. Ele já pousou de helicóptero, mais de uma vez, em propriedade dos Roriz. Na época da construção da usina de Corumbá IV, um trecho da rodovia que facilita a chegada à fazenda Palma, de Joaquim Roriz, já havia sido iniciado. Recentemente, o governo retomou a pavimentação da estrada que dá acesso às propriedades do ex-governador do Distrito Federal e de sua filha Liliane.

A EHL ganhou a licitação para realizar o serviço na GO-425 em 2015. A obra foi iniciada em setembro de 2016 e finalizada nove meses depois. De acordo com a empresa, em abril de 2016, o contrato de fornecimento de cascalho teria sido fechado com Liliane Roriz.

No entanto, a companhia se recusa a mostrar qualquer documento que referende o acordo comercial. Alega que este é um contrato privado e não pode ser divulgado. Além disso, a EHL, por meio de sua assessoria de imprensa, informa que está com sigilo decretado devido a restrições no âmbito das investigações da Operação Ápia, que apura esquema de fraude em licitações de obras no Tocantins.

No ano passado, o dono da Eletro Hidro Ltda. foi preso em Tocantins acusado de fraudar licitações de terraplanagem e pavimentação. A Operação Ápia, da Polícia Federal, revelou que Wilmar Oliveira de Bastos integrava um suposto esquema que direcionava concorrências envolvendo órgãos públicos e agentes daquele estado.

Ele e outros denunciados podem ter causado prejuízos superiores a R$ 1 bilhão, segundo os investigadores. Na época da ação policial, o empresário acabou detido com outras 20 pessoas.

Wilmar Oliveira é sócio e administrador de pelo menos seis empresas, com o capital social de R$ 80,3 milhões. A Eletro Hidro Ltda., a maior delas, foi fundada em 1998, tem capital de R$ 71,4 milhões e é suspeita de superfaturamento de obras nas rodovias TO-080, TO-374, TO-070 e TO-339. Teria recebido R$ 78,7 milhões por esses serviços.

Além disso, a EHL angariou R$ 52 milhões para pavimentar vários municípios de Palmas. No entanto, motoristas denunciaram que, devido à má qualidade do material utilizado, o asfalto rachou em poucos meses.

Projeto embasou licitação

O projeto que prevê a retirada do cascalho da fazenda de Liliane Roriz deveria ser público, pois embasou a licitação para a obra na GO-425, paga com dinheiro do Tesouro local e anunciada amplamente pelo governo goiano, por fazer parte do Programa Goiás na Frente. Além disso, a legislação prevê que a exploração do material seja devidamente autorizada pelos órgãos de controle ambiental. Mais uma vez, no entanto, nenhuma das partes envolvidas comprova a legalidade no processo.

Veja o antes e depois do trecho da GO-425 que corta a fazenda de Liliane Roriz


O pagamento com cascalho é a segunda versão da EHL para o asfaltamento da fazenda de Liliane Roriz. No primeiro contato da reportagem, a empresa afirmou que a obra era privada e havia sido paga pelos proprietários da fazenda. Nesta quarta-feira (29), informou sobre a permuta do insumo.

Adote um Distrital

Por meio de nota, a assessoria de Liliane Roriz disse que ela não vai se pronunciar sobre o assunto. Até sexta-feira (1º/12), a ONG Adote um Distrital promete entrar com uma representação junto à Câmara Legislativa para pedir que a distrital mostre as notas fiscais do serviço de pavimentação realizado em sua fazenda.

“Estamos cansados de pedir providências e a Câmara não fazer nada. Queremos informações relacionadas aos gastos para tentar entender por que as outras fazendas não foram asfaltadas. As pessoas assumem cargos públicos e acham que as coisas públicas são delas”, disse a coordenadora da ONG Adote um Distrital, Jovita José Rosa.

Fonte: Metrópoles

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