segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Leila do Vôlei: a menina de Taguatinga não para de sonhar

Leila do Vôlei: a menina de Taguatinga não para de sonhar


Os grandes olhos verdes de Leila Barros brilham ainda mais quando ela relembra o tempo de infância difícil  em Taguatinga e do sonho que se realizou. E continuam a brilhar quando ela fala dessa nova realidade que inclusive a levou a adotar um novo nome ao enveredar pela política: Leila do Vôlei.
A filha de um casal humilde de cearenses que ganhou o mundo como atleta de vôlei e depois como comentarista da TV Globo, discorre da experiência no esporte e na vida pública – hoje é Secretária de Esportes do GDF – com a mesma desenvoltura com que brilhou nas quadras esportivas.
Não se incomoda de falar da desconfiança que seus pais viam na sua utopia – que virou realidade – de jogar na seleção brasileira de vôlei. Assim como não se omite de dar sua opinião sobre o momento do esporte nacional, com escândalos e prisões de dirigentes.
Depois de ter alcançado mais de 11 mil votos na disputa de uma vaga na Câmara Legislativa nas eleições passadas, Leila deixa claro nas entrelinhas – ela que ganhou notoriedade entre quatro linhas  e uma rede – que vai tentar mais uma vez o jogo das urnas . Defende mais participação de esportistas na política e diz que, num futuro não muito distante, é possível até sonhar com um representante do esporte sentado na cadeira de Presidente da República. A menina de Taguatinga realmente não para de sonhar, como o leitor do Extrapauta poderá conferir na entrevista a seguir:
Extrapauta – As perspectivas  do jovem ao entrar no esporte hoje em busca de uma profissão   são maiores do que na época em que você começou sua carreira?
Leila do Vôlei – São sim, maiores. Eu sou de uma geração desbravadora do esporte. Quando você falava em se tornar um atleta  olímpico , sobreviver do esporte, era uma coisa vista como de um sonhador. Eu vivi muito isso dentro da minha casa. Eu sou filha de um mecânico  que estudou até a quarta série e de uma dona de casa. Eles vieram do Ceará para Brasília.
Extrapauta – Havia preconceito com quem queria abraçar o esporte como profissão?
Leila do Vôlei – Sim,  me lembro claramente que meu pai fazia as reuniões familiares e naquela de perguntar pra mim, para os primos, o que a gente sonhava para a nossa vida. Um dizia que queria ser médico, outro advogado, outra professora. E eu dizia que queria ser jogadora de vôlei do Brasil. Hoje se compreende que o esporte é muito mais do que se forma super-homens e super-mulheres. Esportes são valores, formação do indivíduo.
Extrapauta – Como foi enfrentar essa desconfiança em relação a construir o futuro a partir do esporte?
Leila do Vôlei –  Eu vivia muito de um sonho. Minha mãe lavando a roupinha lá num tanque e eu com aquela bola de meia preta que o professor Celso, do Centro Educacional 2 de Taguatinga mandava a gente fazer. Eu ficava por cima do varão de roupas jogando a bolinha, atacando. Eu falava: mãe, você ainda vai me jogando no Brasil, na televisão. E minha mãe dizia: ih, minha filha, para de sonhar, porque você tá em Taguatinga.
Extrapauta – A opção do vôlei teve a ver com sua   estatura?
Leila do Vôlei – Não teve nada. A opção pelo vôlei foi sonho e aptidão. E também pela condição física. Eu fui também uma boa jogadora de handball  , mas o vôlei me encantou muito mais. E embalada também pela geração do vôlei, a geração de 1984, com Renan, Montanaro, Xandó, e as meninas do vôlei, a Isabel, a Jaqueline, a Vera Mossa.
Extrapauta – Qual delas mais te inspirou?
Leila do Vôlei – A Vera Mossa. A Isabel  e a Jaqueline eram musas, mais estrelas. O que me encantava era a tranquilidade da Vera Mossa. Ela era uma atleta completa. Ela atacava, ela passava muito bem. Mas o que mais me impressionava nela  era a tranquilidade dela diante da pressão do jogo. Me encantei pela Vera Mossa e pelo Carlão, que são dois antagônicos, pois o Carlão era vibrante.
Extrapauta – Você ainda tem contato com essas atletas da sua geração?
Leila do Vôlei – Tenho, inclusive vou passar o Natal deste ano com a Virna. Tenho muito contato com a Ricarda, que até trabalha comigo na Secretaria de Esportes e é uma parceira de vida. Tenho contato com a Fofão, Janina, com várias das meninas. A gente tem até um grupo de whatsapp intitulado Guerreiras. Nós trocamos sempre mensagens. A Ana Moser, que sempre está engajada nas questões do esporte.  São todas pessoas por quem eu tenho grande carinho. Afinal, são pessoas com quem eu passei boa parte da minha vida. Mais tempo com elas do que com minha própria família.
Extrapauta – Valeu a pena essa opção pelo esporte?
Leila do Vôlei – Valeu cada bola tacada, cada dor sentida, cada ausência da família. Valeu a pena demais. Eu acredito que a pessoa que eu me tornei, tudo o que eu sonhei em relação ao esporte eu conquistei. Eu sou uma pessoa realizada, totalmente realizada. . Eu agradeço muito a mulher que eu me tornei. A mãe que eu me tornei.

Extrapauta – Essa virada na sua vida, agora que você trabalha num órgão público que é a Secretaria de Esportes do GDF foi radical demais ou você conseguiu se adaptar bem e rapidamente?
Leila do Vôlei – Eu vivi o processo natural. Eu fui atleta, vivi  toda a carreira de atleta. Disputei três olimpíadas pelo Brasil. Depois me tornei comentarista da TV Globo. Depois trabalhei com ONGs aqui em Brasília, onde nós cuidamos de mais de 50 mil jovens em parceria com a Secretaria de Educação. Depois eu montei com a Ricarda e um grupo de amigos o Brasília Vôlei. E o caminho natural é justamente isso, quando você sai desse ciclo e você entender que você precisa se engajar em novas frentes para que aquilo que você acredita, aconteça, foi um caminho supernatural. Hoje eu estou no setor público, na política. E é ali que são tomadas as decisões.
Extrapauta – E esses escândalos que surgiram na política, mas especialmente na área esportiva, inclusive no Comitê Olímpico Brasileiro , eles frustram você como ex-atleta?
Leila do Vôlei – Frustrar não me frustra, mas me entristece. Eu por um momento pensei: eu fiz parte de uma geração que tanto se doou para o vôlei, uma geração que foi a guinada do vôlei em todos os sentidos, a primeira que foi medalhista, que mudou a forma de treinamento, a mentalidade, e aí você perceber que pela ganância de terceiros a gente tá pagando por isso. Mas não me deixa frustrada. Me deixa triste e me dá mais vontade de lutar. Eu acredito que o atleta aprende que regras não são só para o esporte , são para a vida. E no setor público não pode ser diferente. No setor público também existem pessoas que entendem isso. E ao entenderem isso elas abraçam a sua causa. É o que eu vivo diariamente na Secretaria de Esportes. O atleta tem que se engajar cada vez mais na política, para que a gente busque os nossos espaços e definitivamente tenhamos o poder de decisão na hora de discutir um orçamento, local ou federal, para políticas voltadas ao esporte.
Extrapauta – Nessa escassez de candidatos novos para a Presidência da República, você ousaria dizer se tem algum nome do meio esportivo que possa entrar nessa disputa?
Leila do Vôlei – Nós estamos num processo de maturação nesse sentido. Mas seria precipitado de minha parte dizer que nós temos um salvador da pátria. Não existe hoje, nesse cenário,  um salvador da pátria. Existem pessoas que querem dar sua contribuição, porque elas sabem que têm essa capacidade. Nós estamos vivendo um momento de tantos escândalos também no esporte que a gente está absorvendo isso tudo. E estamos pensando como vamos nos organizar. Porque esses fatos acabaram desorganizando o esporte como um todo. Mas não tenho dúvidas que temos crescer a representatividade do esporte nos diversos setores da vida pública e política. E quem sabe, mais pra frente, a gente não tenha até essa representatividade a nível de Presidência da República.
Extrapauta – A exposição de mídia que os esportistas têm naturalmente é um fator que ajuda nessa entrada na política?
Leila do Vôlei – O esporte tem aquela coisa do jogo limpo, da transparência, das regras. E isso encanta as pessoas. Mas não adianta só isso. A gente tem que se atualizar, entender o processo. Não é simplesmente achar que vai entrar para a política e pronto. Você tem que fazer as mesmas coisas que fez na vida, com humildade, tranquilidade. Eu  mesmo cheguei aqui como aprendiz. Você primeiro tem que entender o jogo, como as coisas funcionam. E aí você vai ver se aquilo se encaixa da maneira como você pensa. Eu estou no terceiro ano  no governo Rodrigo Rollemberg e ainda sou uma aprendiz e sei esperar o meu tempo. E eu algum momento, logo, eu vou entrar em novos desafios. Eu acredito que estou num caminho certo. Estou me preparando, entendendo como as coisas funcionam.
Extrapauta – Você usou várias vezes a palavra jogo, e as pessoas de um modo geral veem a política, sempre mas principalmente nos dias atuais, como um jogo sujo. Tem como fazer política só com jogo limpo?
Leila do Vôlei – Tem, totalmente. Eu acredito nisso. O que eu tenho procurado fazer nesses dois últimos anos na Secretaria de Esportes é um jogo de transparência com as pessoas. Se eu tenho condições, eu atendo. Se não tenho, explico que não é possível. Mas todo dia eu vou para casa com a consciência de que eu fiz o meu melhor.
Extrapauta – Pressões políticas, paternalismo, te incomodam?
Leila do Vôlei – A pressão existe, mas eu aprendi a suportar pressões.
Extrapauta – E o paternalismo?
Leila do Vôlei – Eu tranquilamente respondo não quando não tenho condições ou vejo que partiu para esse caminho. Eu tenho que ter um olhar macro. Eu sou a Secretária do Esporte. Não sou a secretária do vôlei, do futebol, ou do caratê. Sou a Secretária do Esporte. E se eu tenho um cobertor curto, se num mês eu puxar pra um, no outro mês eu tenho que puxar para o outro. Mas eu procuro sempre ser justa.
Extrapauta  – E os números da Secretaria em termos de atendimento?
 Leila do Vôlei – Nós fizemos recentemente uma prestação de contas na Câmara Legislativa que me deixou muito feliz e orgulhosa. Por exemplo, no Compete Brasília que nas gestões anteriores atendia 40 modalidades, hoje nós atendemos mais de 80. Só este ano nós atendemos mais de 2 mil atletas com o  Compete Brasília, que é um programa que não tem um orçamento substancial.
Extrapauta – Esporte e educação acabam sendo complementares. Existe uma integração entre a sua Secretaria e a Secretaria de Esportes?
Leila do Vôlei – Quando eu cheguei à Secretaria eu percebi  que havia esse distanciamento. Eu sou de uma geração em que a educação caminhava com a educação física. De manhã eu tinha aula e no contraturno eu tinha educação física, artes e outras atividades complementares. E em algum momento esse diálogo se perdeu. Eu estou tentando restabelecer isso com o secretário Júlio Gregório, uma pessoa extremamente sensível. Um professor que tem uma experiência e que compreende a importância do esporte. Tanto é que mais de dez anos depois, nós estamos trazendo os Jogos da Juventude. E isso só foi possível com o apoio da educação, porque quem realiza os jogos escolares é a Secretaria de Educação e não a Secretaria de Esportes.  E para que eu pleiteasse que Brasília fosse sede, só possível porque eu  fui até a Secretaria de Educação e propus ao Secretário que fizéssemos esses jogos aqui.  E ele abraçou prontamente. E os professores também abraçaram esta causa.
Extrapauta – Tem muita vaidade no meio desse caminho?
Leila do Vôlei – Eu não sei se é vaidade, mas desconfiança.  São desconfianças que são  históricas, que muitas vezes definiram a forma de conduta. A gente é que tem que quebrar esses paradigmas. Eu acredito piamente que a base do diálogo a gente consegue mudar esse jogo.
Extrapauta – A realização dos Jogos Olímpicos no Brasil, apesar de tudo, na relação custo benefício, você acha que foi boa para o país?
Leila do Vôlei – Na minha visão como atleta, para os atletas, acho que valeu. Agora, como gestora, eu acho que não. A gente vê as estruturas abandonadas. A gente vê o Ministério dos Esportes lutando para que aqueles espaços não fiquem subutilizados. Para que funcionem em prol do esporte. Não houve um planejamento. Mas eu não estou culpando que está hoje no Ministério. Eu culpo o passado. Pessoas que se engajaram demais e não fizeram um planejamento. Não pensaram no pós-olimpíada. Agora, em termos de legado, a gente não teve isso. Eu nem gosto dessa palavra legado. Pois muito se falou em legado e agora a gente viu que nada aconteceu, nada ficou de legado.
Extrapauta – Se não deixou um legado, pode ter tido um efeito contrário, de desestimular o jovem a acreditar no esporte?
Leila do Vôlei – Não porque o brasileiro tem paixão, tem aptidão pelo esporte. O brasileiro gosta do esporte. Mesmo diante desse cenário extremamente desagradável que a gente tá vivendo, a gente tem propensão para o esporte, para a prática esportiva, para a formação de atletas. São profissionais extremamente talentosos. Obviamente que estão tristes, mas estão motivados para continuar persistindo. Porque todos nós sabemos o quanto o esporte é transformador e pode transformar a nossa juventude.
Extrapauta – O lado do negócio do esporte atrapalha um pouco na formação do jovem esportista?
Leila do Vôlei – Eu acho que a gente não pode criticar. Hoje em dia o esporte é muito business. Eu acredito que é um retorno também importante. O esporte precisa de patrocinadores. Não dá para apenas o Estado bancar o  esporte. Mas podemos criar legislações que atraiam o empresário p ara investir no esporte, para que compreenda como é importante investir no esporte.
Extrapauta – Qual foi sua grande decepção no esporte?
Leila do Vôlei – A semifinal nas olimpíadas de Sidney contra Cuba. Nós estávamos ganhando de dois a um e Cuba virou. Foi um momento em que você  tá com uma coisa na mão e de repente  ela evapora.
Extrapauta – E na convivência no mundo do esporte. Alguma decepção?
Leila do Vôlei – No esporte, como na vida, existem pessoas e pessoas. Pessoas que compartilham com você os mesmos ideais, o mesmo pensamento. E tem pessoas que não compartilham. Mas decepções fazem parte da vida. Eu já tive decepções, mas nem por isso eu esmoreci.
Fonte: Extrapauta


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