terça-feira, 19 de dezembro de 2017

O PSB E AS ELEIÇÕES NACIONAIS


O PSB E AS ELEIÇÕES NACIONAIS


ADRIANO SANDRI – Cientista Político.


Primeira parte: Histórico.


Já em fase adiantada de preparação para as eleições nacionais de 2018, o PSB encontra-se numa posição delicada, com desafios peculiares devidos à sua posição estratégica no cenário nacional e à sua dinâmica interna instável e democraticamente complexa.
Esta reflexão objetiva colocar as questões eleitorais dentro de diversos paradigmas próprios do PSB, partido socialista, democrático, a partir de seus referenciais teóricos e de sua história.


Em 1945 a Esquerda Democrática participou do processo eleitoral tendo como objetivo lutar pelo fim do período autoritário – pela democratização – e se aliou com a UDN – em si uma incompatibilidade.


Em 1950, já como PSB, lançou a candidatura de João Mangabeira, objetivando claramente marcar posição, perante a opinião pública, sobre as propostas republicanas e democráticas do PSB e a falta de uma candidatura aceitável pelos socialistas democráticos. 


Nas décadas de 1950 e 1960 o PSB se posicionou sempre na perspectiva de defender e difundir os ideais democráticos e socialistas.
Após sua refundação em 1985 o PSB privilegiou, nas eleições nacionais, o objetivo da “frente das esquerdas”, numa constante tensão entre uma visão democrática e a condução ‘hegemônica’ praticada pelo PT. 


Em 2001 Miguel Arraes, com sua marcante personalidade e como presidente do partido, objetivando dar consistência eleitoral ao partido ameaçado de ser atingido pela clausula de barreira, definiu a candidatura de Antony Garotinho, sem partido, pelo PSB. O PSB garantiu uma boa eleição parlamentar. Em seguida teve que afastar a presença de Garotinho do partido. Toda opção política tem suas consequências positivas e negativas. No caso, a desfiliação de Roberto Saturnino, fundador histórico do PSB, foi uma delas.


Em 2009 o PSB decidiu não apoiar seu pré-candidato a Presidente do Brasil, Ciro Gomes, que, mais adiante, deixou a partido.


Em 2014 Eduardo Campos lançou sua candidatura à presidência da República pelo PSB. Foi o ponto mais alto de uma política partidária de mais de sessenta anos de história. Juntaram-se vários elementos políticos: pequena mas sólida base partidária; grandes e bem sucedidas experiências de administrações públicas municipais e estaduais; o mais avançado programa de governo elaborado pelos partidos concorrentes; aliança, mesmo se na última hora, com Marina Silva portadora de uma interessante base eleitoral de esquerda e, sobretudo, um candidato com indiscutíveis qualidades políticas e credenciado para ser um presidente na altura dos desafios que ele mesmo denunciava há anos.


A trágica morte de Eduardo levou a uma situação completamente imprevista. Um fruto é inegável: o PSB, perante o povo brasileiro, despontou como alternativa política.


Segunda parte: Desafios.


O sistema presidencialista, que virou presidencialismo de coalizão, e todo nosso sistema político confuso, atrasado e atropelado pelo próprio parlamento e pelo judiciário, nos deixa numa situação permanentemente instável. Uma reforma política realizada pelas atuais instituições seria provavelmente um retrocesso. Há uma relevante liderança política de esquerda, centro e direita, que teme uma Assembleia Constituinte democraticamente eleita.


Neste contexto, existem nossos concretos desafios.


Um deles é o dos ‘candidatos avulsos’, ou seja, candidatos sem lastro partidário. Pode-se elencar, no momento, Ciro Gomes, Cristovam Buarque, Joaquim Barbosa, Aldo Rebelo, Hulk do caldeirão, os mais cotados na hora. Personagens que revelam uma das facetas do nosso sistema político: as fragilidades e inconsistências do sistema partidário. E a existência de partidos abertos a tais propostas reflete mazelas e debilidades de tais partidos que não conseguiram construir programas e políticos adequados ao país. O PSB já experimentou esta política quando incorporou Antony Garotinho. Na época, porém, o PSB tinha um presidente que realmente presidia o partido, e em condições de impor ao candidato políticas coerentes com o programa do partido. Com a morte de Eduardo Campos o PSB enfrentou desafios políticos resolvidos de maneira bem questionável: o apoio ao presidenciável Aécio Neves no segundo turno, com apresentação de dez ‘compromissos’, que só uma promessa eleitoral do candidato não seria garantia de cumprimento, caso eleito (isto está na raiz da desfiliação de importantes dirigentes e filiados do PSB); o apoio do PSB ao golpe jurídico-político que afastou a Presidente eleita e que abriu a posse do atual governo de centro-direita (muita influência nesta decisão foi exercida pela bancada de deputados federais que entraram no PSB para apoiar o projeto Eduardo Campos presidente; na ocasião o PSB percebeu que estava sem direção, sem presidência, presidência que só decidiu agir para expulsar este grupo quando ele decidiu tomar a direção da bancada federal).


Um segundo desafio para o PSB é o atraso na discussão e encaminhamento da candidatura própria. Candidatura própria, para ser competitiva e não simplesmente simbólica – o que não é nada desprezível como foi a de João Mangabeira em 1950 - é própria de um partido sólido. Para tanto o partido tem que ter um programa de governo, um projeto de Brasil. E o PSB tem isto e é o mais bem preparado entre os partidos da esquerda.  


Beto Albuquerque defende esta posição desde o início do presente mandato e se colocou à disposição. Infelizmente não acompanhou e não se envolveu na atualização do programa de governo a ser defendido no próximo embate eleitoral nacional.


Renato Casagrande tem experiência legislativa e administrativa notável, além de uma boa capacidade de diálogo político. Construiu como presidente da Fundação João Mangabeira uma proposta bem sólida de diretrizes para um projeto de Brasil que pode e deve ser o referencial para construir um Programa de Governo para o Brasil. Bem no seu estilo de jogador de meio-campo, não revela em público seu desejo de ser candidato à presidência do Brasil, carregando as bandeiras do PSB, numa visão de médio prazo.


Ricardo Coutinho é o governador que tem todas as condições de representar muito bem o PSB numa disputa presidencial. Se o objetivo for o de construir um partido socialista, democrático, representativo do povo brasileiro, não há dúvidas de que Ricardo é uma excelente opção política de candidato do PSB.


Opções, condições e objetivos para o PSB ter seu próprio candidato a presidente do Brasil nas próximas eleições existem em abundância. O que falta no momento é a direção do partido, Executiva e Diretório Nacional, sair da inércia e do cômodo se omitir. Entrar no ano de 2018 deixando o PSB na fila dos partidos `procura-se candidatos’ é mais uma política equivocada e muito questionável.


O terceiro desafio será o da hipotética aliança e coalizão com outro partido na posição de adesão a outra candidatura. Nada de anormal: é sempre um caminho provável. Mas é diferente discutir esta opção tendo programa e candidato próprio ou fazê-la com a fraqueza de um partido subsidiário. Uma composição já para o primeiro turno, se formos bem estruturados, implica uma série de compromissos programáticos e de alianças estaduais que poderiam levar a um crescimento substancial do PSB. 


O atraso de uma discussão aberta e ampla, não restrita ao grupo fechado que normalmente toma as decisões e as submete ao consenso formal da Executiva ou Diretório, prejudica o partido em si. A omissão dos dirigentes nacionais, que caracteriza a atual fase de discussão destes assuntos, é mais uma fraqueza que caracteriza a atual direção nacional. O congresso nacional de março pode ser uma data atrasada para tomar algumas definições e revela a fragilidade da atual direção nacional.

Nenhum comentário:

Postar um comentário